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03/11 | Agências mantêm ritmo de contratações, apesar da crise

Quando a palavra crise ronda o mercado, o roteiro é conhecido: diminuem-se investimentos e, em seguida, profissionais são demitidos. Nos últimos meses, agências como DM9DDB, McCann-Erickson, Hello e Eugenio anunciaram cortes em seus quadros. Já a holding WPP (que inclui Young & Rubicam, Ogilvy e JWT, entre outras) determinou o congelamento das contratações até que o horizonte se torne mais claro. Que esses exemplos, porém, não sejam tomados como regra. Na contramão de uma hipotética tendência de demissões e de contenção de despesas, muitas representantes da indústria da propaganda mantêm o ritmo de trabalho e, inclusive, ampliam suas equipes.

Nesta semana, movida pela renovação do contrato com a Caixa Econômica Federal, a Fischer América anuncia a chegada de cinco novos profissionais seniores para o seu escritório em Brasília - uma dupla de criação, um mídia, um profissional para a área financeira e outro para operações. Com esse incremento, passam a ser 15 os reforços que se uniram à agência no Brasil de agosto para cá (entre os quais, duas repatriações vindas da base portuguesa do grupo). "Estamos estruturados para atender aos nossos clientes e para prospectar outros novos", explica o VP de operações da agência, Dado Lancellotti.

São consideradas solo fértil para as novas contratações a economia do País - hoje bem mais sólida do que no passado recente - e a manutenção do planejamento por parte da maioria dos clientes, pelo menos enquanto não se sabe a intensidade das turbulências externas. Assim, na F/Nazca Saatchi&Saatchi, só na última semana, foram feitas cinco contratações (para as áreas de mídia, criação e atendimento). A conquista da Fit Residencial, empresa que entrou para a carteira da agência em junho, e as contas da Claro e da Skol estão por trás da movimentação. "Não sentimos efeito direto nem indireto da crise", afirma Ivan Marques, sócio-diretor da F/Nazca.

No Grupo Publicis, por sua vez, ocorreram 12 contratações nos últimos dois meses: nove na Publicis e três na Salles Chemistri. "A conquista de novas contas como a da Telefônica, em agosto, e a retomada de crescimento - chegaremos a 20% até o fim de 2008 - impulsionaram as contratações, que envolvem as áreas de criação, mídia e atendimento", comenta o VP nacional de criação do grupo, Hugo Rodrigues.

Já a Fala, do Grupo Total, que ganhou parte da conta do Ponto Frio, é um caso à parte. Antes com 80 profissionais, a agência tem previsão de contratar entre 20 e 25 pessoas até o começo de 2009. Mas como a DM9 perdeu parte dessa conta, e com isso demitiu 30 pessoas, para o mercado é como se o equilíbrio fosse mantido. Alex Isnenghi, chamado para a direção geral da agência, por exemplo, vem da DM9. "A diretoria ainda pode sofrer alterações", afirma o presidente Allan Barros.

Pé no chão

Em geral, o clima entre os publicitários é de otimismo, mas com cautela. Executivos e empresários continuam a prever bons resultados para este ano e 2009, porém mantêm os pés no chão e projetam números mais tímidos para o ano que vem. "Não acredito que em 2009 vá haver estagnação nem crescimento negativo, e sim um crescimento moderado", diz Marques. "Meu palpite é que o mercado crescerá entre 8% e 10% e a F/Nazca, uns 5%", completa. Se a avaliação tivesse sido feita no primeiro semestre, porém, o índice seria maior. "Dois meses atrás, tínhamos a perspectiva de crescer aproximadamente 25% em 2009, o mesmo número deste ano. Agora a nossa projeção é de 16%, sendo cerca de 5% de correção de tabela e o restante de crescimento real", analisa Aurélio Lopes, presidente da Giovanni+DraftFCB.

Ele conta que a crise não trouxe nenhum impacto significativo para os negócios da agência, nem mesmo por atender a Gafisa, marca do setor imobiliário, um dos mais suscetíveis às mudanças de humor do mercado. "A empresa é líquida e está tranqüila", observa. Só neste mês, cinco novos profissionais fixos chegaram à Giovanni (um para o Rio, outro para Brasília e três para São Paulo), além de cinco freelancers e quatro reposições. O crescimento da agência é impulsionado pela área digital e pelo cross-sell, que permitiram ampliar a atuação dentro dos clientes.

Comedidamente, até agências do grupo WPP renovaram suas equipes. A JWT contratou duas pessoas para a criação digital e repôs outras duas. E a Ogilvy trouxe Renata Saraiva para ser diretora da Ogilvy RP, além de ter feito uma reposição. "Estamos olhando para o futuro sem tirar o pé do acelerador", explica Sérgio Amado, presidente do grupo Ogilvy Brasil. Segundo ele, o quadro funcional agora está fechado e é praxe que não ocorram contratações entre novembro e março. Por outro lado, não há perspectiva de demissões em curto prazo, o que impactaria os resultados da agência e causaria um desgaste desnecessário se daqui a sete ou oito meses profissionais tivessem de ser recontratados.

Na Centoeseis ocorreram seis contratações em outubro, impulsionadas pela conquista de sete novas contas no decorrer do ano. O resultado foi um crescimento de mais de 10% na equipe, que assim chega a 50 profissionais. "Pensamos em ampliar o nosso escritório (em São Paulo), mas estamos esperando para fazer esse movimento definitivo", revela o sócio e diretor-geral Ricardo Al Makul. "Se entrar mais trabalho, aumentamos a estrutura."

Uma das visões mais otimistas do mercado vem do sócio-presidente da Fam, Fábio Siqueira. Ele conta que sempre ouviu o discurso temeroso de que dias nublados estão por perto. "Para mim a única crise que nos afeta é a do pessimismo", diz. Segundo ele, é em momentos como esse que as agências devem mostrar aos clientes que propaganda não é gasto e sim investimento. Para responder às demandas de seus clientes, Siqueira contratou quatro pessoas nos últimos 90 dias, para o atendimento e a criação. A previsão é de trazer mais sete pessoas para a equipe, hoje de 35 funcionários, até o começo de 2009.

Fundada há noves meses e em estágio de formação de equipe, a Babel também contratou no mês passado Fernanda Modena, como diretora de atendimento, e espera trazer mais três pessoas para a sua equipe até o fim do ano. Esses novos profissionais, todos da área digital, estarão inicialmente voltados para um projeto para o cliente Nestlé. "Temos uma estrutura dimensionada para os nossos clientes. As agências maiores em geral têm maior ociosidade", afirma o presidente da agência, Julio Anguita.

Com staff de 487 pessoas, o grupo TV1 também tem perspectivas de contratações. No momento, são nove as vagas abertas - quatro para a GNova, duas para a TV1RP, duas para a TV1.com e uma para a TV1 Eventos. O presidente da empresa, Sérgio Motta Mello, ressalta, no entanto, que o momento é de ficar atento. "Não estamos demitindo, mas se houver saída em algumas áreas não vamos repor", pondera. "Estamos bem-posicionados, porém agimos sem euforia."

Em praias cariocas

No Rio de Janeiro, a Artplan, que este ano acumula significativas conquistas sendo a última a confirmação da vitória nos Correios, anunciou na última semana a contratação de oito profissionais só para a criação. Rodolfo Medina, presidente da agência, diz que as novas contas fazem com que o movimento seja natural, independentemente do momento que a economia atravessa. O perfil das contratações privilegia profissionais com conhecimento em um maior número de setores. "Isso facilita em casos em que realocações sejam necessárias", diz Rodolfo, ressaltando que a Artplan segue imune à turbulência.

A Agência3 vem também em ritmo de crescimento desde o início do ano, quando tinha 87 funcionários além de seus sete diretores. No fim de outubro, já eram 115 funcionários, número que deve ser incrementado com o escritório de Brasília, em fase final de montagem. A nova operação terá início ainda neste mês e um de seus principais objetivos é a intensificação da participação em licitações públicas federais.

Ela também acaba de lançar a Local, agência com foco em contas regionais, o que permitiu importantes contratações como a de Mauro Lopes (ex-Publicis), como diretor geral, e de Leonardo Brossa (ex-NBS), para o comando do núcleo digital. "A criação da Local permite que a Agência3 intensifique sua expansão no plano nacional", explica o presidente Álvaro Rodrigues.

A paranaense Heads, que se instalou no fim de 2007 no Rio para atender Petrobras, é mais uma agência que continua investindo. A filial tem hoje 22 funcionários, com duas recentes contratações na criação. Cláudio Loureiro, presidente da Heads, afirma que a montagem do escritório no Rio priorizou profissionais seniores e com experiência em grandes clientes nas áreas de criação, mídia, planejamento e atendimento. Eventuais vitórias em concorrências podem significar mais contratações. "Não vejo nem o céu nem o inferno. Quando abrimos há 20 anos, tínhamos uma inflação de 80% ao mês. Crise maior que essa eu desconheço", comenta Loureiro.

A chegada da Oi em São Paulo também acelerou a rotina da NBS, que nos últimos dois meses contratou 15 profissionais para sua matriz no Rio, em áreas que incluem a criação e a mídia. Antonino Brandão, sócio e diretor de atendimento da NBS, afirma que o crescimento da demanda de outros clientes como Bobs e da divisão de não-carbonatados da Coca-Cola tem feito com que a crise passe longe da agência. "Felizmente o perfil dos nossos clientes não tem sido afetado pela turbulência. Ao contrário, a Oi iniciou uma nova fase de investimentos", comemora.

Enquanto isso, em Minas Gerais, o fluxo do mercado vem sendo mantido sem alterações. "Temos tido um número normal de contratações, com maior procura para as áreas de planejamento e atendimento", revela Juliano Sales, presidente do Sindicato de Agências de Propaganda de Minas Gerais (Sinapro-MG) e diretor da agência Casablanca.

Um exemplo é a Domínio Público, que tem em sua carteira clientes como a montadora de caminhões Iveco. Além de contratações pontuais, a agência espera trazer entre três e cinco novos planejadores para casa em breve, o que significa dobrar a equipe atual. "Somos reconhecidos por nosso planejamento estratégico e, em momentos como o atual, os clientes pedem que o trabalho seja mais consistente e otimizado", afirma Paulo Silva, diretor-presidente da agência.

Below the line aquecido

O noticiário e as oscilações do mercado financeiro, por enquanto, não assustam o setor de below the line. É pensamento corrente entre os profissionais da área que, caso a crise chegue de maneira concreta ao Brasil, ela será - ao lado da digital - a menos atingida. Para alguns, ela pode até ser beneficiada. "Quando ocorre uma crise, o marketing promocional é o último a sentir e o primeiro a retornar", afirma Fernando Figueiredo, presidente da Bullet, que fez nove contratações este mês, batendo a barreira dos 100 funcionários.

Vicente Criscio, CEO da gaúcha Direkt, que também tem escritório em São Paulo, acredita que há dois fatores a serem levados em conta em relação aos sintomas de aquecimento do mercado. O primeiro é que as contratações, muitas vezes, se referem a iniciativas tomadas já há algum tempo, o que significa que não deu para "puxar o freio de mão".

O outro ponto diz respeito ao fato desse ser um tipo de mídia mais "pagável". "A crise pode abrir uma janela para o marketing direto. Quando os clientes recompõem o budget de fim de ano, eles cortam custos mais altos, como os com propaganda. E pode sobrar verba para o marketing direto. Vamos ser beneficiados por sermos os primos pobres." A agência tem estimativa de contratar entre cinco e seis pessoas nos próximos meses.

Por sua vez, Caio Romano, diretor-geral da Mundo Universitário, afirma que sente um "ritmo frenético" no mercado. Ele espera fechar 2008 com 40% de crescimento em relação ao ano passado e deve contratar no início de 2009 uma pessoa para a área de produção, três para operação e uma para criação. Fora do eixo Rio-São Paulo, uma empresa que também amplia seus domínios é a baiana Plural Marketing Promocional. Nos últimos 18 meses, o número de funcionários subiu de nove para 16 e a previsão é de que ocorram mais duas contratações até o começo do ano.

A Mix Brand Experience acaba de criar um departamento de entretenimento, idealizado com o objetivo de desenvolver projetos exclusivos, sociais e culturais, aproveitando os benefícios da lei de incentivos. "Os próprios clientes pedem isso. O crescimento ia acontecer com crise ou sem crise", explica Célio Ashcar, sócio-diretor da agência. A nova área trabalhará integrada com outros departamentos e será comandada por Kalina Bourgeois. Contará ainda com dois profissionais e um estagiário para o planejamento, três profissionais para criação, dois profissionais de produção e um gerente de contas para o atendimento. Com isso, a agência chegará a ter mais de 80 profissionais fixos.

No caso da Criacittá, uma mudança de posicionamento contribui para que a empresa mantenha a rota crescente. "Há dois anos assumimos o posicionamento de empresa de marketing cenográfico. Nossa expertise é a construção de ambientes", conta o sócio-diretor Nelson Rocha. Resultado: um crescimento de 20% previsto para este ano e de 30% para o próximo. Até o fim de 2008, a empresa também vai contratar 20 pessoas, oito para criação, desenvolvimento e planejamento estratégico e 12 para o processo industrial de montagem da cenografia em si.

Força digital


Remuneração das agências vinculada à performance dos produtos, rapidez em eventuais mudanças de rumo de campanhas e possibilidade de focar no público-alvo. Essas são algumas das razões que fazem com que o marketing digital seja considerado um forte aliado dos anunciantes em tempos nublados. "Sabemos que 2009 vai ser mais duro do que 2008. Mas não dá para dizer qual será o impacto das turbulências externas. De toda forma, acredito no digital em tempos de crise. Quando se fala em investimento em eficiência, ele é campeão", opina Abel Reis, presidente da AgênciaClick.

A agência mantém um ritmo médio de crescimento anual em seus quadros de funcionários de 15% e hoje conta com 300 pessoas. Este mês, Renato Virgili foi contratado para a gerência de mídia mobile. Nesta área, a previsão é de contar ainda com mais uma pessoa este ano e três em 2009. No planejamento, três novos profissionais foram contratados nos últimos 60 dias. Na tecnologia, quatro pessoas em 45 dias.

Empresas de porte menor também seguem contratando. A 10´Minutos S.A. chegou a 37 profissionais com dois novos integrantes que chegaram este mês. Já na Full Haus, que trabalha também offline, a representatividade de ações online na receita era de 16% há um ano e hoje é de 51%. Por isso, dois reforços na área chegaram para a equipe total da agência.

Para Marcelo Tripoli, presidente da iThink, os cortes em outras agências podem ser mais um fator a beneficiar as agências digitais, que passam a ter maior oferta de mão-de-obra qualificada. "A disponibilidade de bons profissionais começou a aumentar", diz. E a agência tem lugar para essas pessoas. Atualmente, são oito vagas abertas - duas de criação, duas de atendimento e gerência de projetos, duas de planejamento e duas na área de mídia. Os investimentos mais volumosos na internet por parte de Wall Mart, Gafisa e, principalmente, da Telefônica estão entre os fatores que influenciam esse cenário. A expectativa de crescimento para o ano? Entre 180% e 200%. Com projeções assim, não dá mesmo para acreditar em crise.


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